Judice vs Webb

José Miguel Júdice publicou no Público de 27 de Fevereiro de 2009 uma crónica que me fez rir. Deixo aqui algumas citações, embora quem possa deva ler a crónica por inteiro já que as pérolas são umas atrás das outras. Gosto especialmente do ultimo paragrafo “Se os mais bem sucedidos empresários portugueses tivessem investido em arte nos últimos 30 anos, talvez neste ano de 2009 estivessem mais felizes… e muito mais mais ricos!” E’ inevitável pensar no nosso mais conhecido banqueiro-coleccionador e na fortuna da sua riqueza.

(…) O leilão da colecção de arte de Yves Saint-Laurent e Pierre Bergé trouxe esta semana a Le Bourget a maior quantidade de jactos privados da sua história e foi o leilão de uma colecção privada que atingiu o valor mais elevado de sempre. Nesta mesma semana os jornais americanos, ingleses e franceses dedicam também muito espaço à provável nacionalização do sistema formado pelas instituições de crédito de dimensão mundial, com perdas enormes para os seus accionistas; e, no caso português, o BCP está a caminho de valer cerca de 10% do que se cotava na bolsa há pouco mais de dois anos.
O tema merece uma reflexão moral, parece-me. Vamos, então, a ela.
(…)
Talvez não haja investimento que dê maior prazer do que aquele que é feito em obras de arte. Mas seguramente que – se descontarmos o relevante mercado das galerias de arte e dos críticos que fazem a chuva e o bom tempo – provavelmente ninguém discutirá que investir em acções de bancos cria muito mais riqueza e emprego.
Com toda a probabilidade, os felizes compradores de obras reunidas pelo grande costureiro e o seu amigo Bergé vão poder vendê-las daqui a uns anos com novas mais-valias. Nesse sentido, os grandes mestres são investimentos tão seguros como antigamente se dizia que era o investimento em terrenos.
Mas o mesmo não acontece com investimentos produtivos, em bancos, indústrias ou empresas de distribuição. Com elevada dose de probabilidade, se houvesse alguém que num leilão de acções desse tipo de empresas decidisse nelas investir (e é evidente que não há) viria a encaixar menos-valias no futuro, como acontecerá a quem nestes tempos for obrigado a vender.

Os factos são estes e parecem-me indesmentíveis e insofismáveis. E acho que as lições morais também o são.
Em primeiro lugar, o ataque aos banqueiros e aos proprietários de bancos em que tanto se excedem demagogos de vários quadrantes e extremistas de várias famílias. Tivessem os nossos banqueiros investido em arte e, para além de serem incensados por toda a parte, estariam agora muito mais ricos e protegidos das tempestades, mesmo se a riqueza e o emprego criados tivessem sido muito menores.
(…)
Talvez Portugal consiga sair mais depressa do buraco em que nos atolamos se houver coragem para valorizar e investir no luxo, no requinte, na arte, na cultura, nos bens que não são de primeira necessidade: em cerca de 80 anos uma cadeira de Eilleen Gray passou a valer 22 milhões de euros.

(…) Se os mais bem sucedidos empresários portugueses tivessem investido em arte nos últimos 30 anos, talvez neste ano de 2009 estivessem mais felizes… e muito mais mais ricos!

Com certeza o José Miguel Júdice lê o FT Weekend e esta semana não terá sido excepção. Deverá então ter visto o texto da Merryn Somerset Webb que, no mesmo jeito simplista de JMJ, mostra o outro lado da história.
Esperemos que, para o bem de todos, “the truth will lay somewhere in the middle”.

The truth is that the art market has pretty much everything you don’t want in an investment. It is very illiquid: when you want to sell, you have either to find the right private buyer for the artwork or find the right auction, persuade the auction house to take it and then wait for the auction to take place.
It is utterly untransparent: we might be able to see auction prices but who knows what price speculators in a hurry are getting for their works from dealers? It doesn’t pay an income of any kind. It is very fashion-dependent. It is also a poor performer. Unless you happen to get your hands on something by a dead artist (ie in genuinely limited supply) that has been recognised as good for some decades by everyone, it is pretty much a guaranteed money loser.
Sure, the indices that track auction prices suggest that art has moved more or less in line with the S&P 500 for decades, but most art never gains enough value to get a place at the kind of auction that index compilers track. There’s no index tracking that sweet painting of fishing boats that you paid £500 for in a little gallery in St Ives a decade ago – and no index tracking what happens to the prices of paintings by the average “emerging artist” over a caree
r”.

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