Herr Flick’s Style

Bufete, pau santo, seculo XVII. Cabral Moncada, leilao 90.

Bufete, pau santo, seculo XVII. Cabral Moncada, leilao 90.

Regularmente perguntam-me por que razão não se vê mobiliário português com mais frequência no mercado internacional. Existem várias razões, como a filiação estilística do mobiliário Dom João V e Dom José em outros estilos europeus ou o nível de acabamento não ser refined enough. No entanto, uma das principais razões é a falta de oferta. Não se cria um mercado, se não houver oferta suficiente. Mesmo que a qualidade fosse fora de série no contexto internacional – e existem pecas destas – não haveria pecas suficientes para sustentar o interesse e informação necessária para criar um mercado.
No entanto, a mais interessante reacção internacional ao mobiliário português é o mobiliário do século XVII, com os seus típicos bufetes e contadores de torcidos e tremidos e cadeiras de couro lavrado. Uma produção que atravessou do século XVII para o século XVIII e teve um forte revivalismo no final do século XIX, princípio do XX. Junte-se as pecas realizadas no Brasil e temos já um grande grupo com um distinto carácter que as fazem únicas no contexto europeu.
Tal como o bargueno não podia ser se não espanhol, ou o mobiliário boulle se não francês, o nosso mobiliário setecentista não poderia ser outra coisa para além de português. Não há duvidas de classificação. Os tremidos, os torcidos, o uso do pau-santo, as ferragens de desenho complexo, o couro lavrado de decoração vegetalista; tudo isto é distintamente português. Existem influências naturalmente: veja-se os moveis do francês Pierre Gole ou o couro espanhol e flamengo. Ou, também, a herança inglesa Queen Anne, no desenho das cadeiras (a exposicao Baroque no V&A mostra actualmente uma cadeira de couro lavrado portuguesa, das coleccões deste museu, juntamente com um holandesa e outra inglesa, sublinhado a circulação de formas barrocas pela Europa). No entanto, o resultado alcançado em Portugal é sempre idiossincrático. Este é o estilo português por excelência.
Talvez por isso, Raul Lino, pai do Estilo Portugues Suave, quando superintendente dos Palácios Nacionais, ao renovar os interiores destes tenha usado este móveis para os decorar. O bufete – mesa com pernas aos cantos e gavetas, verdadeiras ou simuladas, nas quatros frentes – deixou de ser mesa de trabalho e tornou-se mesa de centro. Assim a conheci em casa dos meus avos, na sua versão oitocentista, herdada de um tio-bisavô republicano. E num misto de trabalho e centro, tem o seu momento de fama a cada quatro anos, quando acontece a tomada de posse do governo no Palácio da Ajuda.
Em Maastricht, este ano, assim como no ano passado, o dealer de couros Kunsthandel Glass tinha tres cadeiras joaninas com couro lavrado que, aos olhos de qualquer portugues, perito, amador ou analfabeto eram portuguesas, de tao familairaes que sao num contexto daqueles. Este dealer tinha então classificado como italianas, de Genova, sei la porque. Em conversa, disse-lhes que eram portuguesas. Este ano, lá estavam novamente, dizendo “Italianas ou Portuguesas”. Eles sabem que são portuguesas, mas a verdade é que são mais fáceis de vender e tem um price tag maior se forem italianas. E como o world famous vetting committee da TEFAF nunca deverá ter visto cadeiras daquelas, elas lá vão passando como italianas.
Por outro lado, hoje em dia, alguns decoradores internacionais, gostam de usar alguns destes móveis, na minha opinião, pelo forte carácter que possuem. Se em Portugal se olha para eles com desdém, pelo peso e cor escura que têm, no estrangeiro vêem os como algo com carácter e que no ambiente certo se releva. Em ambientes de tom colonial ou hispânico, como tantas casas em Palm Beach ou na Califórnia, são muitas vezes utilizados. Se o Peter Marino, amigo e decorador de Andy Warhol e Georgio Armani, e um dos interior designers mais importantes do mundo, usa bufetes nos seus projectos, talvez pudéssemos olhar com novos olhos para estes móveis, que aparecem aos três e quatro em cada leilão da Cabral Moncada ou do Palácio do Correio Velho.
Sem grande fundamento, digo que este mobiliário deverá ter sido, como agora é, o único exportado de Portugal. É esta impressão que tenho, ja que nunca registei pecas Dom João V e Dom José por aí fora. Para me contradizer outra vez – ou talvez não – lembro-me, contudo, de quatro cadeiras de couro lavrado (já do reinado de Dom João V) no palácio dos Duques de Queensberry e Buccleuch, Boughton, casa conhecida pelos pecas da autoria dos grandes Pierre Gole, Gerrit Jensen e Antoine Charles Boulle.
Para terminar, o momento alto da carreira deste estilo, na minha opinião, aconteceu nos anos 80, em que uma secretária com tremidos, feita no século XIX ou XX naturalmente, era a mesa em que o cruel Herr Flick da Gestapo recebia a Helga no Allo Allo. É preciso prestar uma certa atencão, mas ela esta lá.

Tomada de posse

Tomada de posse

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