Tapecarias, Riflemaker e Paula Rego

79 Beak Street, 09.05.09 6.35pm

79 Beak Street, 09.05.09 6.35pm

No meio das inúmeras galerias existentes em Londres, continuo a ser adepto da Riflemaker. Inaugurada em 2006 e rapidamente rotulada como the coolest art space in town esta instalada no Soho numa casa georgiana onde funcionava uma antiga loja de carabinas. A primeira vez que lá fui, há quase três anos, tinham uma exposicão dedicada a Indica, uma das galerias mais importantes de Londres nos sixties. Na montra estava uma obra de Lourdes Castro. Dedicam-se não só ao seu grupo de artistas como a montar interessantes exposicões temáticas sempre surprrendentes. A última, intitulada Voo-Doo, era superb. Passei lá este sábado e deparei-me com uma exposicão de tapecarias que incluía pecas de Kara Walker, Gavin Turk e Julie Verhoeven. A exposicão é uma espécie de leftovers da exposicão Demons, Yarns & Tales que Banners of Persuasion organizou em Miami e é de um enorme interesse, não só a exposicão como a organizacão que teve a iniciativa.

When we invited a group of internationally renowned artists to explore a medium foreign to their usual practice, we were asking them to take a voyage into the unknown, leaving their area of comfort to work in unfamiliar territory. The medium was that of Tapestry; a lost art made redundant by the sheer expense of its production and non-compliance within a world impatient to conform to the ease of mass-production in an era of convenience. The art of Tapestry and the knowledge of its craft faded long ago in much the same way as the magnificent tapestries themselves disintegrated.

No mesmo dia que passei pela Riflemaker, tinha lido que o Museu da Presidência em Lisboa tem presentemente uma exposicão dedicada a Manufactura de Portalegre, que trabalhou com muitos dos nomes da arte portuguesa do seculo XX. É ler o Alexandre Pomar, assim como Folha de Sala. E visitar a exposicão já agora.

Uma tapecaria no século XVII feita a partir de um quadro do Rubens era muitíssimo mais cara que um original seu, sendo o trabalho dos tapeceiros altamente valorizado e reconhecido. Hoje em dia, o caso não é o mesmo, dando-se demasiado relevo ao conceito de original e único. A verdade é que, no século XVI, XVII e XVIII sabiam que uma tapecaria carregava o valor do artista, da incrível arte dos tapeceiros assim como dos materiais envolvidos, muitas vezes incluindo fio de ouro e prata. Por isso, esta exposicão é um bom momento para olhar para as Tapecarias de Portalegre com mais atencão.

As tapecarias na Riflemaker assim como a exposicão no Museu da Presidência, fizeram-me lembrar aquela que é provavelmente a tapecaria mais importante do século XX português e que muito poucas pessoas conhece. Não feita por Portalegre, (aliás, tecnicamente nao é correcto chamar-lhe tapecaria, mas deixemos isso para depois) mas por costureiras da Ericeira, a partir de um desenho e sob a orientacão da Paula Rego. Medindo 6,5 metros de comprimento por 2,5 de altura e representando a Batalha de Alcácer-Quibir vai ser a estrela da Casa das Histórias e dos Desenhos a abrir em Cascais. Foi encomendada nos anos 60 para um hotel no Algarve que nunca chegou a ser construído. Tive a sorte de a ter visto e manuseado antes de a Camara de Cascais a ter inteligentemente comprado. Na linguagem formal que vinha usando nos anos 60, a Paula Rego transpos para um suporte têxtil toda a complexidade da sua obra de então, com fortes sobreposicões, colagens e recortes, formas dinamicas dispostas em espacos curtos, perfeitamente adequada a este episódio, um dos mais importantes da História de Portugal.
Passado cerca de dois anos de ter ficado espantado com esta tapecaria, estava eu na livraria da National Gallery e vejo a Paula Rego em pessoa. Em dois segundos pensei “Esta é a minha oportunidade de falar com a Paula Rego”. Dirigi-me a ela que simpaticamente gastou alguns minutos à conversa comigo. Falei-lhe desta tapecaria e ela recordava-se perfeitamente. A minha dúvida desde que vi a obra era se a Paula Rego tinha feito mais do mesmo tipo. Ninguém tinha até então ouvido falar da Paula Rego a trabalhar com têxteis, muito poucas pessoas conheciam a Batalha de Alcácer-Quibir. Perguntei-lhe, portanto, se tinha sido a única que tinha feito, ao que me respondeu que tinha feito outras, mas que não sabia do paradeiro delas. Um dia, estas aparecerão no mercado e deixarão o público tão maravilhado da mesma forma que a Batalha de Alcácer-Quibir vai deixar quando a Casa das Histórias e dos Desenhos abrir.

Paula Rego - Batalha de Alcacer-Quibir (in Agenda Cultural de Cascais - Set/Out 07)

Paula Rego - Batalha de Alcacer-Quibir (in Agenda Cultural de Cascais - Set/Out 07)

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