Mergulhei de peixe

“Mergulhei de peixe nos museus. Uma arte que conhecia das estampas era servida num aquário. As guelras abriam-se, abanava a cauda, o sangue vivo entrava através das tábuas, das telas, dos desenhos. Às horas de almoço, no intervalo de trabalho, eu ia para a National Gallery sentar-me para ver. Ficava horas inteiras frente à Virgem dos Rochedos, depois passava para o Ucello, dialogava com a Jeanne de Chenany, do Van Eyck. Aqui perdia noção das coisas, sobretudo nas máscaras de Bronzino, máscaras de medo que não fosse homem, voltava à Virgem dos Rochedos e no relance a Santa Catarina, do Gérard David, para depois ficar frente ao Bellini, na Agonia do Jardim, salto mais e vejo uma nova agonia, desta vez de Greco, para sair com a cabeça mais maravilhosa do meu séquito, a de Parmigianino. Recuava na colecção de nomes. Indispunha-me a forma americana de relatar dez catedrais, mil e quinhentos quadros, vinte missas solenes, cem Louvres com guardas a papaguearem os símbolos da estupidez. Como podia ser o mundo governado pelas massas? Como? Pelas massas das massa ou pelas massas da estrutura de que todos são iguais, estrutura de roubar o mais sagrado que habita dentro de cada ser – o binómio liberdade-imaginação. Às vezes um sol coado, sol londrino, estiolava pela uma hora da tarde na entrada do museu, eu ia descansar, aprender, horas a ver, assim como passara horas a ouvir. E eu não sabia ver o que estava perto. Sabia sim, ver a serra da Arga, o Gerês, o Marão, a serra da Estrela, visão do panorama que me agarrava pelos calcanhares. Mas agora iniciava-me a ver o que estava dentro desses panoramas, ver para lá do Gerês. Quem sabe o que está? Pelo menos uma sensibilidade de que enquanto permanece no seu posto de observação nao tem tempo para executar as baixezas de D.Violante nem os arrecuos de má disposição do Silva por causa da borracha do Costa. Era brutal este choque, brutal pelo que me obrigava a ver, um ver dramático, um ver de preto. Valia a pena revoltar-me? Para que?, afinal para mostrar aos outros que o controle do meu eu era frágil, troco de vinte e cinco tostões, cotão de algibeira, rabeca partida, solas gastas, lenço roto, caneta sem tinta, papel borrado. Diante de um idealismo eu perdia o idealismo, esta a fundamental vidência que me ocorria nestes meses de visitas. A fome de ver continuava, chupar o que o Império Britânico tinha chupado ao mundo, este o seu grande foco de imaginação, servira-se do mundo para criar grandeza , grandeza que na palavra escrita encontrou a forma sublime, no diálogo. Absorvia a música dos países de língua alemã, a pintura dos italianos e holandeses, actualizava-me na França e criava no papel impresso um caldeirão de profundidade que seria o eterno servido às colheradas, para as noites longas de Thackeray e Dickens, para os dias equinocais de Shakespeare e Ben Johnson, sempre no rasto da poesia que Eliot representava para mim um Deus em movimento, ali a passear, comigo ao lado, numa viagem de comboio que ficou assinalada nas Páginas.”

In Ruben A. – O Mundo à Minha Procura III: Autobiografia. Assírio e Alvim. pp.161-2.

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