Subleyras

tibaldi

As notícias do Público de ontem (e os comentarios, como é costume) sobre os quadros de Maria Felice Tibaldi Subleyras vendidos ontem na Christie’s tem novamente uma pontinha de saloiice que me enerva. A notícia na edicao impressa ja era um pouco mais sóbria e correcta. Aparentemente os peritos da Cabral Moncada são os piores do mundo, mas os da Christie’s não, embora ambos tenham “falhado” em igual medida. E, verdade seja dita, eles não falharam. Apenas publicaram uma estimativa – o valor que acham que poderá atingir, o que não é o mesmo que o seu valor – que não se veio a confirmar. O que aconteceu foi o mercado a funcionar. Os leiloes sao feitos destas coisas, de pecas que se publicam e na sua exposicao e discussao novos conhecimentos surgem. Da mesma forma que a Cabral Moncada falhou em identificar no catalogo o suporte – marfim – e o ourives romano que fez a moldura, a Christie’s falhou em não apresentar qualquer investigacao sobre as mesmas, depois de muito tempo e discussão, e tendo recursos infindaveis e uma equipa de peritos especialistas.
As leiloeiras portuguesas, por não terem a mesma capacidade financeira, têm equipas mínimas. Se alguem conseguir a mesma taxa de catalogacoes correctas que o Miguel Cabral Moncada tem nas mais diversas areas em cerca de 5000 lotes anuais, adorava saber para lhe tirar o chapeu. Toda a gente falha e aqui toda a gente falhou. A Cabral Moncada, a Christie’s e o Público. O Público, quando os press offices da Christie’s e da Sotheby’s lhes impingem as notícias que determinada venda arrebentou com as estimativas, fazem grandes notícias mostrando como o mercado está pujante, esquecendo-se que poderá ter existido erros de catalogacão ou pura e simplesmente duas pessoas a lutarem sem sentido por uma peca. A unica pessoa que ganhou foi mesmo o vendedor da peca em Londres que teve a coragem de compra-la em Lisboa. Mas essa é a beleza do mercado da arte, encontrar sleepers, descobrir pecas esquecidas, trazer novos factos para a historia da arte. O que aqui se devia sublinhar era a descoberta de uma peca joanina de enorme interesse e nao falar do acessório. Espera-se agora que algum academico as estude e publique actualizando os estudos joaninos.

3 thoughts on “Subleyras

  1. Caro João, apenas dois comentários. A notícia do Público foi comprada à Lusa que fez um grande trabalho ao falar com muitos peritos e avaliadores portugueses, como também com o perito da Christie’s, acabando assim por escrever uma notícia segundo a opinião unânime.
    Ainda sobre a catalogação da Cabral Moncada, a peritagem dos especialistas da casa (feita três dias antes da data da venda) foi certeira, identificando ourives e levantando logo a possibilidade de encomenda real. Esta errata estava disponível no dia do leilão na sala.
    Um caso complicado cheio de questões ainda por resolver.

  2. Como disse o João Júlio no comentário anterior, este é um caso cheio de questões por resolver. Não é o Miguel Cabral Moncada o perito de pratas, sou eu, e este par de molduras nunca me foi mostrado nem falado até ao dia 23 de Outubro, quando um cliente me telefonou para saber mais detalhes das molduras. Elas estavam catalogadas junto dos demais quadros, fotografadas todas sujas e dizendo que não tinham marcas e as pinturas eram sobre pergaminho. Após o telefonema fui logo a correr para a Cabral Moncada, falei com a Sofia Ruival a quem também ninguém as tinha mostrado, e lá as descobrimos penduradas na parede ao lado de um móvel. Vimos logo que era uma obra excepcional de ourivesaria com um valor superior ao das pinturas (no séc. XVIII custaram mais 50% do que estas, o que confirma a nossa primeira análise). Eu de imediato as levei para proceder à limpeza e análise mais cuidada, e o resto é melhor nem contar. O João Júlio foi uma das pessoas que foi logo avisada, desde o início que colocámos a série hipótese de elas terem feito parte da encomenda de D. João V para São Roque, o que se veio a confirmar. A Christie’s fez a investigação certa, basta ir ao site deles, não sei como se pode escamotear esta realidade. E nós também a tinhamos feito, se os responsáveis da Cabral Moncada tivessem retirado este lote de leilão e dado mais tempo aos seus peritos para procederem á necessária investigação. Fomos nós que identificámos o ourives de Roma e fizémos o certificado para o comprador.
    Sou perito na Cabral Moncada, como há muitos mais anos sou perito do PCV, já fui da Dinastia e da Leiria & Nascimento, sou perito na Renascimento, na Aqueduto e de muitas mais entidades e pessoas, não é isso que alguma vez me vai desculpar um tamanho erro de peritagem, se é que se pode chamar peritagem a não ver coisíssima nenhuma…! Se na altura não tenho salvaguardado a minha posição e publicado tudo no site que tenho com a Sofia Ruival, a esta hora era o meu nome que estava em causa, já que ninguém dessa empresa veio em minha defesa, e por detrás do meu nome já estão seis gerações ligadas à ourivesaria…

  3. Caros Joao e Henrique, Obrigado pelos comentarios e clarificacoes. Quanto ao facto de ter dito que a Christie’s ter falhado, e’ engano meu, apesar de no catalogo impresso onde vi os quadros nada ser dito e por isso era essa ideia que tinha quando ontem aquilo escrevi. A investigacao da Jennifer Montagu, julgo, surgiu depois da publicacao do catalogo, (surge como saleroom notice no site) o que, como tambem disse, e’ valido, faz parte do normal funcionamento dos leiloes e foi, em igual medida, o que se passou em Lisboa.
    O meu post surgiu de duas razoes: a primeira, o sublinhar nas noticias da disparidade de valores entre os dois leiloes em detrimento da importancia da descoberta artistica, assim como uma certa culpabilizacao da Cabral Moncada que julgo nao ser inteiramente justa (onde se incluia o comentario violento no Publico do Henrique Braga). Por haver muita coisa por resolver, como dizem, e por achar que e’ fantastica esta discussao publica, espero que situacoes destas acontecam mais vezes, nao passem despercebidas, gerando mais e novas discussoes.

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