GRANDES COLECCIONADORES

GREAT COLLECTORS OF OUR TIME: ART COLLECTING SINCE 1945
James Stourton
Scala Publishers

great collectors

“Existem tantos tipos de coleccionadores como existem colecções”, esta é uma das ideias que se fica depois de ler “Great Collectors of Our Time: Art Collecting since 1945” de James Stourton. O autor, chairman da Sotheby’s UK, recolheu em 400 páginas uma impressionante quantidade de informação sobre cerca de centena e meia de colecções, todas elas construídas na sua grande parte depois da Segunda Guerra Mundial.
Com uma pequena introdução e 7 capítulos — School of Paris, America Triumphant, Switzerland. Germany Rises, Oriental Assemblies, London – Art City e Europe since the 1950’s — vemos surgir passo a passo os nomes que fizeram e continuam a fazer de diferentes formas esta história do coleccionismo: Rockefeller, Rotschild, Getty, Mellon, Guggenheim, Panza di Biumo, Sainsbury, Givenchy, Gilbert, Saatchi, e por aí fora.

Em pequenos artigos dedicados a cada um ou a pequenos grupos de coleccionadores, Stourton consegue de uma maneira agradável sintetizar, entre a petit-histoire, afirmações dos próprios, declarações de outros e investigação bibliográfica, o espírito, as origens e as razões dessa colecção. Não se trata de uma análise da prática coleccionista. Essa já foi explorada minuciosamente de em livros seminais como “The Rare Art Traditions” de Joseph Alsop ou “On Collecting” de Susan Pearce, obras marcantes na percepção desta prática. O que Stourton apresenta neste livro é a materialização das teorias que aquelas professam, um catálogo para as provar, questionar ou completar.
A razão para a datação pós II Grande Guerra é a natureza das colecções. A partir desta data, esta deixa de ser meramente privada, um luxo, uma forma de tornar a vida mais agradável, paixões particulares partilhadas por um grupo de privilegiados. E passam a a ter uma natureza mais pública, seja com o aumento dos empréstimos para exposições e das doações, seja com o elevado número de colecções transformadas em museus, seja com o estudo com que estas são desde o início construídas. Existe igualmente uma clara descentralização cultural com Nova Iorque e os Estados Unidos a tomarem o lugar de Paris. Stourton deixa contudo de fora da sua selecção todo o hemisfério sul (e coleccionadores como o brasileiro Gilberto Chateaubriand). A sua selecção é quase pessoal, revelando também por vezes os seus sentimentos sobre quem escreve embora de uma forma geral positivo.
Vemos então os perfis de empresários, diplomatas, ricos herdeiros ou académicos, como por exemplo o grupo altamente influente de historiadores de arte ingleses: Kenneth Clark, John Pope-Hennessy, Francis Heskell e Denis Mahon. Mahon é não só provavelmente o maior especialista da pintura italiana do século XVII como um dos seus grandes coleccionadores. E tentou sempre usar o empréstimo das suas obras como arma política, pressionando o governo, e conseguindo, para manter a entrada nos museus gratuitas.
Mas Stourton consegue num curto espaço revelar-nos as personalidades de figuras menos mediáticas como o casal Vogel – ele trabalhador dos correios ela bibliotecária – que, com recursos mínimos, formaram uma notável colecção de arte minimalista e conceptual com 14,000 obras; e Georgios Costakis, grego que conseguiu em pleno regime comunista reunir num pequeno apartamento moscovita uma colecção de arte soviética ímpar e de quem o escritor inglês Bruce Chatwin deixou um fascinante relato num dos seus livros.
Vemos retratadas figuras carismáticas apaixonadas por uma arte como o espanhol Juan Abello e o seu gosto pela Pintura, por um período ou estilo, como o esteta Mário Praz e a sua paixão pelo Império, ou mesmo a tradição coleccionista das monarquias europeias representadas hoje nas compras do Príncipe Hans-Adam do Liechtenstein.
Uma das entradas mais interessantes e conseguidas é a dedicada a George Patiño Ortiz, provavelmente o maior coleccionador de arte da antiguidade de hoje. A colecção Ortiz tem um website (www.georgeortiz.com), revelando umas das formas de institucionalização ou formas de tornar pública a colecção. Como foi dito, uma das grandes diferenças entre as colecções de hoje e pré-1950 é precisamente o estudo e especialização postas nelas, sendo o melhor espelho de tal a publicação dos catálogos que se vão multiplicando — tais como os 32 volumes da colecção Nasser David Khalili, os 6 da colecção Lehman (hoje no Metropolitan Museum) ou os 16 volumes da colecção Thyssen.
Nesta ambiciosa e conseguida obra, que a Apollo Magazine na sua edição de Dezembro elegeu como o livro do ano 2007, James Stourton conta que Picasso uma vez afirmou: “Je ne suis pas un collectioneur”, enrolando o R final com desprezo. Quantas vezes não ouvimos o mesmo dos coleccionadores que mostravam as suas colecções à L+arte, quase como num comportamento padrão. A verdade é que Picasso deixou uma colecção impressionante, como muitos dos que disseram o mesmo à L+Arte já o têm ou esperamos que venham a ter. E então, talvez um dia, os coleccionadores portugueses, com a mesma coragem, visão, altruísmo, entrega e amor à arte de muitos retratados nesse livro, sejam lembrados numa obra como esta.

escrevemos in L+Arte, Janeiro 2008

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