A Heranca Camondo

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Quem já visitou o Museu Nissim de Camondo sabe que não se trata de apenas mais uma casa-museu. De mais uma vaidade de um coleccionador que deixando a sua coleccão “à nacão” perpetua assim a sua memória. A qualidade das obras presentes na coleccão existe, a arquitectura da casa tem interesse histórico, a vida e a família do coleccionador deixaram a sua marca na sociedade, tanto parisiense como turca. No entanto, não são tanto as obras nem o coleccionador que diferenciam esta coleccão mas, na nossa opinião, a tristeza que aí se sente. É o facto de a tristeza do nome que carrega ser de quem nunca a viveu. A coleccão não tem o nome do coleccionador — Moise de Camondo (1860-1935) — mas sim do seu filho a quem tudo isto se destinava e que morreu em accão na Primeira Guerra Mundial.

Os Camondo são constantemente comparados aos Rothschild e com uma certa razão. Coleccionadores, judeus e filantropos, foram também banqueiros de reis e imperadores e foram nobilitados com o titulo de conde pelo rei Vítor Emanuel de Sabóia. Originários de Istambul, criaram um império financeiro que levou dois irmãos, Abraham (1833-1905) e Nissim (1830-1910), em 1869, para Paris onde se instalaram e rapidamente passaram a fazer parte da cena social de então que incluía, como seria de esperar de alguém literado e com recursos sem fim, actividades coleccionistas. Moise de Camondo, (filho de Nissim, ja cidadão frances, e seguindo o exemplo do pai e do tio, vai se tornando aos poucos um importante coleccionador e essencialmente um connaisseur. Torna-se próximo dos museus de Paris, convivendo com os seus conservadores e bebendo do seu conhecimento. Concentra-se no então fora de moda período do reinado de Luís XVI — incluindo tambem o imediatamente anterior estilo Transicão — tornando-se num apaixonado por estas “artes decorativas que foram uma das glórias de Franca, durante o período que amei acima de todos”. É esta história e o seu resultado materializado em museu que o livro recém-publicado pela Thames& Hudson conta. Livros sobre museus podem ter os mais diversos propósitos, mas a difícil tarefa muitas vezes e cumprir objectivamente bem esses propósitos. E este livro consegue. Faz a síntese da formacão da coleccão, explicando o contexto familiar — que tanta importancia aqui tem — e oferece de forma generosa bastantes imagens reveladoras não so dos interiores da casa como também da qualidade ao pormenor de muitas das pecas.
Essas sairam das mãos dos maiores ébenistes desse tempo — Riesener, Carlin, Oeben, Leleu, Lacroix, Weissweiler, … A coleccão é particularmente forte em mobiliário, mas pratas de ourives como Robert-Joseph Auguste e Jacques-Nicolas Roitiers (com pecas do servico Orloff), bronzes de Thomire, esculturas de Houdon e Falconet, tapecarias de Beauvais, Savonnerie e Aubusson e pinturas deVigée-Lebrun, Boucher, Huet e Hubert-Robert compõem este museu, tal como o coleccionador tinha em vida, seguindo fielmente as instruccões testamentárias postas em prática um ano após a sua morte em 1936. O museu foi então deixado à Les Arts Decoratifs, o organismo que ainda hoje gere várias instituicões em Paris ligadas a esta área, que inclui por exemplo o recentemente renovado Musée des Arts Decoratifs e a École Camondo, dedicada ao ensino da arquitectura e design de interiores.
O livro está organizado em três partes: sobre Moise, subdivido em capítulos sobre a família, a casa e o construir da coleccão; uma “visita à casa”, com as soberbas fotografias de Jean-Marie del Moral, complementadas com comentários dos conservadores do museu; e por fim um capítulo dedicado as zonas de servico da casa. Apesar da re-criacão de um ambiente ancien régime, Camondo vivia com todos os luxos que a vida moderna proporcionava. O livro reserva por isso um capítulo as funcionalidades da casa que poderia ser a materializacão perfeita da residência que Eca de Queirós imaginou para o seu “Principe da Gra-Ventura”, o Jacinto das Cidades e as Serras.
Os catálogos da coleccão ja foram publicados à muito, a história da família, de Moise e de Nissim é conhecida. O que este livro traz de novo é compilar de forma clara e bem ilustrada a informacão sobre a familia, sobre a construcão e vida da casa assim como sobre a formacão da coleccão. Até aqui é o mínimo que se pode esperar da conservadora-chefe do museu e de uma editora como a Thames & Hudson. Mas o que esta publicacão apresenta de forma brilhante é o genius loci do museu. As fotografias de Jean-Marie del Moral tiradas ao longo de três anos, em todas as estacões, nas diferentes luzes do dia, das salas, aos pormenores dos tapetes, dos tectos às cozinhas, retratam a tristeza que emana de sala para sala, a dita estranha tristeza de um fantasma que nem conheceu a casa como ela é. Ou talvez o fantasma não seja do desafortunado Nissim mas sim do pai Moise, bem mais desafortunado, já que perdeu o filho, a mulher deixou-o e o resto da família, filha, genro e netos, viria a morrer em Auschwitz, as mãos dos Nazis.

Marie-Noel de Gary (Ed.), Jean-Marie del Moral (fotografias)
The Camondo Legacy: The Passions of a Paris Collector
Thames &Hudson, 2008
320 paginas

escrevemos in L+Arte nr.58, Setembro 2008

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