FLASHES DE UM IMPÉRIO

In L+Arte, Setembro 2009
João Magalhães

Podemos passar as portas do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), após a visita à exposição “Encompassing the Globe: Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII”, maravilhados com o exotismo dos materiais e das técnicas de cerca de duas centenas de peças, belas, raras, criteriosamente seleccionadas para serem testemunho do encontro de culturas, da miscigenação, dos mundos que Portugal abraçou. Podemos também sair do Museu com verdadeiras dúvidas, por desconhecermos qual a verdadeira história que a exposição tenta contar-nos, sem sabermos exactamente como, por quem e por que razão surgiram todos aqueles objectos extraordinários.

Não se trata, nem esse era o objectivo, de uma exposição sobre os Descobrimentos Portugueses. Trata-se, sim, de mostrar o encontro de Portugal com os povos das terras por onde passou nos séculos XVI e XVII. Segundo Jay Levenson, um dos comissários, a ideia foi sublinhar o “papel de Portugal em trazer para a Europa importantes novos conhecimentos sobre o mundo”, assim como mostrar “obras de arte que se possam descrever como ‘multiculturais’ (…) combinando estilos e iconografias europeias e não-ocidentais”. Resumindo, na selecção de peças “não se pretendeu dar um enfoque à expansão territorial, mas antes ao intercâmbio cultural iniciado pelos portugueses, o qual ainda hoje pode ser considerado como o mais notável e também o mais perene dos seus feitos”, escreveram os comissários na introdução ao catálogo. Para a promoção da exposição, especialmente nos EUA, de onde provém, foi escolhido inteligentemente o conceito, não novo, da primeira globalização, isto é, de como Portugal aproximou mundos mas também de como a informação circulava rapidamente no seu circuito imperial, evangélico e mercantil. A exposição foi pensada para o Smithsonian Institute, onde foi apresentada em 2007, tendo passado em 2008 pelo Palais Royal, em Bruxelas. Segundo um dos comissários, “a vinda para Lisboa deveu-se primeiramente a uma promessa do primeiro-ministro quando visitou a exposição em Washington, reflectindo, diga-se, o desejo espelhado em vários artigos saídos na imprensa enquanto a exposição decorreu”.

Mapas e câmaras de maravilhas
No MNAA, “Encompassing the Globe…” apresenta-se com algumas diferenças em relação às suas antecessoras, sendo a mais importante a inclusão de tesouros nacionais que foram impedidos de viajar, tal como a recentemente restaurada Custódia de Belém, os Biombos Nambam ou os Painéis de São Vicente, todos do MNAA, obras-chave para o discurso das Descobertas. Mas, tal como antes, divide-se em seis núcleos: Europa, África, Índia e Ceilão, China, Japão e Brasil, sendo que, no MNAA, estes percorrem-se de forma contínua nas salas do seu andar nobre.
O visitante, ainda na escadaria, é recebido pelo Padrão de Santo Agostinho, procedente da Sociedade de Geografia, que Diogo Cão erigiu em 1483 na foz do Rio Zaire, seguindo-se uma grande tapeçaria flamenga, representando a chegada de Vasco da Gama à Índia, recebido por um dos reis locais, numa imagem de enorme exotismo e fantasia (a tapeçaria pertence à série conhecida por “à maneira de Portugal e da Índia”, composta por cerca de 20 tapeçarias, reportando a viagem de Vasco da Gama, supostamente encomendadas por D. Manuel e depois reproduzidas, por encomenda de inúmeras figuras ilustres europeias).
Passa-se, a seguir, para um conjunto de peças que sublinham a importância da cartografia e o desenvolvimento dos conhecimentos náuticos, onde os portugueses foram verdadeiramente pioneiros. Essenciais para o controlo da navegação nos oceanos, mostram como todas as informações eram minuciosamente registadas com uma precisão científica surpreendente. A apresentação do Planisfério de Cantino, de 1502, é um dos pontos altos da exposição: provável produto de espionagem política e comercial, foi encomendado por Alberto, duque de Ferrara, e é uma cópia das cartas que existiam no arquivo e oficina cartográfica do Paço Real e onde se inscreviam todas as informações que chegavam das viagens marítimas. Segue-se um sub-núcleo, denominado Da Casa Real, largamente ampliado em comparação com a exposição americana, que inclui, por exemplo, os Painéis de São Vicente.
Entrando na secção seguinte, vemos as peças que normalmente guarneciam as kunstkammer europeias, objectos exóticos que chegavam nas naus a Lisboa, em materiais como tartaruga, madrepérola ou coco, muitas vezes com montagens europeias. Um tema que teve amplo desenvolvimento em 2000 e 2001 na exposição “Exótica – Os Descobrimentos Portugueses e as Câmaras de Maravilhas do Renascimento”, na Gulbenkian e no Kunsthistorisches Museum, em Viena. Também na “Exótica…” foi explorado, com maior profundidade, parte do núcleo seguinte, dedicado a África, nomeadamente os marfins africanos, vindos da Serra Leoa e da região do Benim, essencialmente, e que são o primeiro cruzamento cultural entre a Europa e a África. Aqui, são apresentados, entre outras obras, quatro extraordinários saleiros — dois da Serra Leoa e dois do Benim, um proveniente do Museu Britânico e outro, fragmentado, do MNAA — e é impossível não lembrar o que foi vendido em Paris no ano passado, proveniente de uma colecção particular portuguesa, que o Estado não tentou adquirir (v. L+arte n. 50).

Missões e porcelanas
Índia e Ceilão são as terras que se seguem, onde o papel dos jesuítas não poderia deixar de ser falado. Duas pinturas de André Reinoso, parte do ciclo da vida de São Francisco Xavier, ou uma escultura em madeira policromada, vindas do Museu de São Roque, mostram o contacto dos portugueses naquelas paragens. Marfins goeses, cofres em filigrana, duas fantásticas capas bordadas em Bengala para o mercado português, o famoso contador da região noroeste da Índia, da colecção do MNAA, e um frontal de altar em ébano embutido com marfim, do Victoria & Albert, são outras obras que aqui se podem encontrar. Do Ceilão, destaque-se o importante cofre em marfim com ouro, rubis e safiras, revelado também na “Exótica…”.
O núcleo de 15 peças dedicado ao Japão tem como ponto alto, naturalmente, os biombos nambam que o MNAA normalmente exibe na sua exposição permanente. Com uma qualidade pictórica indiscutível, com uma minúcia e pormenor impressionantes, reveladores do interesse que o encontro com Portugal provocou naquelas terras, os biombos representam as trocas comerciais entre os nambam-jin e os japoneses, que assim denominavam os estrangeiros que vinham do Sul.
A China está naturalmente presente com um grupo de seis peças de porcelana azul e branca com referências europeias, sendo que a porcelana é, sem dúvida, a herança material mais forte nas casas e palácios nacionais. Foram os portugueses os primeiros a trazer para a Europa, de uma forma continuada, a porcelana, que rapidamente se tornou obrigatória em qualquer casa.
Uma vista de Macau, do Livro de Todas as Fortalezas de António Bocarro, cinco peças em marfim, cinco têxteis religiosos, uma custódia em prata do Museu de São Roque, juntam-se ao grupo, assim como um retrato do Padre Matteo Ricci e uma vista do observatório astronómico de Pequim, lembrando a importância das discussões científicas e filosóficas dos jesuítas na tentativa de evangelização da China.
O capítulo dedicado ao Brasil é marcado pelo facto de não existir propriamente um cruzamento cultural entre os portugueses e os povos ameríndios. Mostram-se, assim, representações dos seus costumes, da fauna e da flora e mesmo de um engenho de açúcar, realizadas por pintores holandeses — Albert Eckhout e Frans Post– que ali estiveram aquando do domínio holandês no Nordeste, com Johan Maurits de Nasau.
A pintura quinhentista representando o Inferno, do MNAA, onde um demónio surge emplumado, uma associação ao estrangeiro desconhecido, e a Adoração dos Magos, do Museu Grão Vasco, em que Baltasar aparece como um índio, são duas das primeiras representações europeias de nativos americanos. A criação artística no Brasil destes séculos, na sua essência de cariz religioso, tem sido um pouco posta de lado pela historiografia local que, imbuída de um certo nacionalismo, tem preferido sublinhar a formação da identidade brasileira a partir do século do ouro e dos artistas já nascidos no Brasil. Em algumas obras, mas principalmente no catálogo, sublinha-se a umbilical ligação à metrópole, seja em termos de encomendas seja nos artistas ali presentes. Por falar, ficaram as ilhas atlânticas, e o Norte de África, onde Portugal esteve tão presente no século XVI, principalmente, e, afinal de contas, por onde toda esta história teve início (o facto de os comissários terem optado pela exclusão total da arquitectura talvez justifique esta opção).

Sem sangue e sem tabelas
Todos os núcleos apresentam uma pequena mas boa selecção de peças, mas a amplitude de cada um dos seus temas leva a que muito fique por dizer. É aliás esta sensação, de que algo ficou por mostrar e por dizer, que nos acompanha no fim da mostra. Não existe império, suor, lágrimas, reis, conquistas e a evangelização é pequena; trata-se de uma exposição um pouco abstracta, pouco humanizada, onde as figuras que fizeram esta história quase não existem, uma exposição politicamente correcta, ao gosto americano mas que, pouco americanamente, se perde por completo na falta de contexto e explicações.
Não existe uma única tabela individual explicativa sobre as peças e os muitos turistas — que, espera o governo, venham a visitar a exposição — não vão, certamente, perceber a importância, por exemplo, dos Painéis de São Vicente ou da Custódia de Belém, não saberão o que fez Matteo Ricci, assim como muitos portugueses não entenderão o significado do cofre cingalês em marfim ou do Planisfério de Cantino, nem o que faz o caranguejo de S. Francisco Xavier numa peça japonesa. Esta, infelizmente, é a falta mais grave de uma exposição que se destina ao grande público, não a especialistas (e que, tendo em conta que as suas datas apanham praticamente os meses das férias escolares, mais séria se torna).
A exposição mostra magníficos flashes do que foi a presença de Portugal no mundo nos dois séculos da expansão, sem contudo dar ao público o contexto necessário para que eles não sejam esquecidos, à saída do MNAA, sob o quente sol de Lisboa. E um investimento desta envergadura não deveria correr esse risco. Sobretudo quando a equipa de comissários traz a importante mais-valia de uma visão externa do tema, embora sem grandes surpresas em termos académicos.
Que esta exposição — que talvez fizesse mais sentido em São Paulo, Hong Kong ou Sidney do que em Portugal — sirva para discutir a política de divulgação internacional da cultura portuguesa. E, já agora, a necessidade de um Museu dos Descobrimentos, aqui, em Lisboa.

“Encompassing the Globe – Portugal e o Mundo dos Séculos XVI e XVII”
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Até 11 Outubro

OUTROS FACTOS
“Encompassing the Globe – Portugal and the World in the 16th and 17th Centuries” foi uma ideia de Jay Levenson, conservador do MoMA de Nova Iorque, que a propôs a Julian Raby, da Freer Gallery of Art, do Smithsonian Institute, em Washington. Apresentada em 2007 neste museu, a exposição foi um enorme sucesso de público com cerca de 340 mil espectadores.
O comissariado científico é composto por Levenson e Raby, por Nuno Vassallo e Silva, James Ulak, Regina Krahl e Jean-Michel Massing. O comissariado executivo, em Portugal, esteve a cargo de Teresa Pacheco Pereira e Paulo Henriques do MNAA.
A exposição é composta por 173 peças, um número menor do que o apresentado em Washington, cerca de 300, e teve um orçamento de 2,8 milhões de euros, partilhado pelo Turismo de Portugal, pelo Ministério da Cultura e por verbas comunitárias. Os organizadores esperam que atinja os 100 mil visitantes.

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