Tapetes Orientais na Christie’s

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AN ISFAHAN CARPET, Central Persia, 17th Century, ex- coleccao Principe Dom Afonso de Braganca (1865-1920)

No final do século XIX e inicios do século XX, os Estados Unidos comecaram a substituir a Inglaterra no papel de líderes mundiais. A economia crescia fortemente e as elites que surgiam então tinham tudo, menos o que a Europa lhes oferecia: civilizacão. Por isso, a solucão era a mesma utilizada em muitas outras situacoes: comprar. Não temos arte, compra-se. E comecou então o que já foi antes descrito como a maior migracão de obras de arte da História. Uma migracão da Europa para a América. Quadros, esculturas, jóias, móveis, armaduras, porcelanas, mas também igrejas inteiras, claustros, palácios, tudo foi transladado pedra a pedra e remontado em propriedades americanas. Tectos de igrejas espanholas eram remontados em apartamentos de Nova York, interiores de palácios franceses, e por aí fora. Os Cloisters, nucleo do Metropolitan Museum, é um óptimo exemplo do que se passou.

O mercado da arte explodiu nessa época, sendo o mítico Joseph Duveen a figura mais famosa deste período. Dealers americanos viajavam pela Europa, mas também tinham batedores a percorrer o terreno em busca da obra de arte esquecida. Tinham os dealers, tinham os coleccionadores (como William Randolph Hearst) e tinham os museus (e não so os museus americanos – o Victoria & Albert Museum também tinha batedores em Espanha, por exemplo). Esta é uma história conhecida, e sempre me interroguei se não haveria registos mais concretos da presenca destes batedores/dealers em Portugal. Um assunto de enorme interesse, por estudar, e que poderá revelar muito do que existiu em Portugal e saiu para o estrangeiro.

Ontem, a abrir o catálogo de 24 Novembro da Christie’s – 500 Years: Decorative Arts Europe Including Carpets from The Corcoran Gallery of Art – deparo-me com a venda de parte da coleccão da Corcoran Art Gallery de Washington (venda para subsidiar novas aquisicoes) e vejo que vários tapetes persas pertenceram a coleccões portuguesas (lotes 29, 30, 129, 133 e 204). Vitall Benguiat era, com o seu irmão Leopold, um antiquário de Nova York, especializado em tapetes, e aparentemente esteve em Lisboa a comprar. Comprou tres tapetes ao 4.o Duque de Lafoes, Dom Caetano, um ao Principe Dom Afonso, Duque do Porto, irmão de Dom Carlos e um outro proveniente do Convento de Santo António em Lisboa. Vendeu-os depois a William Clark, conhecido coleccionador, que os deixou a este museu.

O tapete do príncipe Dom Afonso, com grande probabilidade proveniente das coleccões reais portuguesas, deveria suscitar o interesse dos museus nacionais. No entanto, pouco se espera, já que o Museu de Arte Antiga tem uma coleccão muito importante de tapetes orientais quase todos em reserva. (Ver o excelente catálogo da exposicão “O Tapete Oriental em Portugal. Tapete e Pintura, séculos XV-XVIII no MNAA”, 2007).

A falta de uma política de aquisicões por parte do Instituto Português de Museus é clara, e a compra do Tiepolo depois da pressão publica feita por um jornal, revela como não existe qualquer direccão nesta área. Se houvesse critérios, prioridades definidas, orcamento para aquisicoes, aposta no mecenato, talvez se conseguisse valorizar as coleccoes nacionais e não perder oportunidades claras como o famoso saleiro da Serra Leoa vendido em Paris recentemente. Surgindo casos como este tapete, haveria então pelo menos condicões para discutir o seu potencial interesse para as coleccões nacionais. Coisa que não vai acontecer sequer, embora discutir não custe dinheiro.

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  1. Pingback: The Lafões Carpet | Utz

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