Esculturas de carne e osso

Desde há um ano que a National Gallery tem estado a promover a exposicão recém aberta na Sainsbury Wing, The Sacred Made Real: Spanish Painting and Sculpture 1600-1700.
Como o nome indica, esta explora o carácter realista da arte espanhola durante o seculo XVII, tendo especial incidencia em Sevilha, cidade de artistas como Zurbaran e Velazquez.
No cada vez mais politicamente irritante Guardian, vem um excelente artigo sobre a exposicão, da mão de James Hall, que nos dá não só uma boa ideia da mostra como também dos antecedentes do olhar sobre este importante capítulo da arte espanhola.

A exposicao, apresenta não so esculturas como pinturas, mas desde que comecei a ouvir e ler o entusiasmo com esta, nao posso deixar de pensar como interessante é para um olhar nórdico, ou não-sul europeu, estas esculturas deitando sangue, com veias a explodir, lágrimas a escorrer e faces estáticas, congeladas, prontas a revelar o milagre da fala. Como qualquer portugues ou espanhol, quando ouco a expressão “da cara que parece ter sido esculpida”, não associo à escultura clássica greco-romana, mas sim a estas esculturas realistas, que fomos educados a olhar como imagens devocionais e não esculturas.
O realismo estético, a intencão catequética e piedosa, é exactamente a mesma em Portugal e em Espanha, e a união política em que estivemos metade do século XVII facilitou. Trata-se de uma fé comum, de uma abordagem à fé comum, mas tambem o período em que os nossos artistas mais próximos estiveram.

Casamentos entre portugueses e espanhóis eram constantes e a Fortuna fez com que a Espanha saísse Diego Velasquez (filho de pai português) e a Portugal Josefa d’Obidos (filha de pai espanhol). Bela rifa a nossa. Fez também com que Alonso Coello, apesar de crescido e formado em Portugal e protegido de Dom João III, se tornasse pintor espanhol. Mas não fugindo ao assunto, a natureza da escultura portuguesa é muitissimo próxima da espanhola assim como a qualidade não está distante, embora lhe faltem mais personalidades, nomes a quem associar encomendas e obras.
Este facto torna-se bastante relevante quando se fala na dinamica da investigacoes académicas assim como do mercado da arte, factores que andam muitas vezes de mãos dadas. A qualidade da escultura espanhola, assim como as suas muitas individualidades (Pedro de Mena, os Irmãos Garcia, Juan Martínez Montañés,…) permitem então a realizacão desta brilhante exposição na National Gallery, assim como, a reboque, a organizacão de uma fantástica exposicão comercial de apenas escultura na Matthiesen Gallery em St James, em associacão com o antiquario de Madrid Coll&Cortes (com um catálogo importante, aliás). Estas exposicoes demonstram também que nada melhor que um contexto diferente para que se possa olhar para as obras com outros olhos.

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