Wallpaper

Publicado in L+Arte, Jan 2010

O mundo do antiquariato força muitos dos seus membros a se tornarem, depois de décadas de trabalho com determinados assuntos, em especialistas nestes. É o caminho natural e se assim não for, também algo de errado se passa. Carolle Thibaut-Pomerantz, após mais de vinte anos a trabalhar com papéis de parede, tornou-se numa das referências internacionais na matéria. E agora publicou um livro — Wallpaper, A History of Style and Trends –, com edições em francês e inglês, onde traça a história desta arte decorativa, as suas origens técnicas, descreve as suas características, e através de inúmeros exemplos, a sua evolução estilística que, como qualquer arte decorativa, necessita de ser entendida num contexto mais global.
Carolle começou a sua relação com os papéis de parede, ou papiers peints como esta franco-americana gosta de chamar, em 1986 com a descoberta deste nicho num leilão no Hotel Druout. Desde então, fascinada por esta arte fez-se antiquária, coleccionadora e intensa apaixonada na matéria, com a sua vida entre Paris e Nova York, sendo presença regular em feiras internacionais, tal como a TEFAF.
O livro que agora lançou começa com as origens do papel de parede que vão de mãos dadas com a invenção e desenvolvimento da imprensa. O sistema que Guttemberg inventou permitiu o desenvolvimento da técnica da xilogravura usada para pequenas folhas de papel com motivos decorativos repetitivos a preto e branco: os dominos. Os dominos eram usados primeiramente para revestir pequenas caixas, em encadernações e em armários, passando a ser usados em pequenas, mas progressivamente maiores e mais elaboradas, decorações. Isto passava-se em Franca, mas Inglaterra e o norte da Europa também acompanhavam este gosto decorativo, com associações aos revestimentos de couro tão em moda no século XVII e XVIII.
E é no século XVIII, com o desenvolvimento da impressão de grandes folhas, assim como com a chegada do papel de parede chinês, que a técnica se impõe e se transforma numa indústria, com múltiplos exemplos apresentados neste livro.
Pouco destaque, no entanto, é dado à produção chinesa que, no século XVIII, não só atingiu acentuado interesse artístico como também teve um papel influente na Europa – em termos estilísticos mas também do uso da técnica – para onde era exportado em grandes quantidades, especialmente a partir de meados do século. Thomas Chippendale, por exemplo, era grande fornecedor de papel de parede chinesa da sua clientela aristocrática.
O final do século XVIII assiste ao surgimento das vistas panorâmicas em papel de parede que levará a um dos períodos áureos desta técnica nas primeiras décadas do século seguinte. Largas vistas de jardins, as “Viagens do Capitão Cook” ou a “Batalha do Nilo”, são bons exemplos de como paredes, salas inteiras se tornaram em suporte para pinturas, quebrando as noções de espaço, transformando-se em gigantes trompe l’oeil. Zuber e Dufour continuam a ser os nomes mais sonantes desta arte. A fama da primeira deve-se também ao facto de ter sobrevivido ao passar dos anos, estando ainda hoje em actividade. Outras firmas foram quase tão importantes naquele seu tempo: Jacquemart & Bernard, Sauvinet, The Velay ou Pignet… É este capítulo onde se vê o maior conforto da autora na abordagem ao tema, pela riqueza dos exemplos que sobreviveram e pela profícua produção desse tempo.
Tiveram que passar alguns anos para revermos o papel de parede rejuvenescer em criatividade e produtividade e é nos anos da arte global dos artistas-decoradores do Art Deco que tal acontece com resultados extraordinários, em especial em Franca.
E a terminar, antes da conclusão, um capítulo dedicado ao últimos 60 anos, em que, com os desenvolvimentos técnicos na impressão e suportes, o papel de parede ganha um enorme potencial em termos de novas aplicacões e praticabilidade. E os artistas reconhecem esse potencial adaptando-se a um sem numero de ambientes dos quais o livro regista uns poucos: de Leonor Fini a Andy Warhol, de Niki de Saint-Phalle a Roy Lichtenstein, de Karl Lagerfeld a Takashi Murakami.
O livro é, tal como a autora, imaculadamente elegante assim como uma excelente síntese desta arte decorativa. Peca apenas pela falta de uma reflexão mais profunda sobre o seu uso e impacto no quotidiano dos espaços em que se encontravam. Os espaços onde esta reflexão talvez pudesse ser feita — a introdução e a conclusão — acabam por ter um tom panegírico do papel de parede como arte a coleccionar. É, no entanto, a perfeita porta de entrada para o mundo desta singular arte decorativa.

Wallpaper: A History of Style and Trends / Papiers Peints: Inspirations et Tendances.
Carolle Thibaut-Pomerantz
Flammarion
2009
240 pags

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