Ruben A. e Henry Moore

A minha linguagem, forma de expressão da palavra, era essencialmente uma linguagem plástica – as formas, os espaços – um todo que durante anos em Portugal me aproximara dos meus amigos Barata Feyo, António Duarte e Martins Correia. Os escultores transmitiam-me necessidades, formas de diálogo, anda à volta que me obrigava a conversar ali mesmo. A pintura era diferente, mesmo muito, parada frente ao meu desejo de movimento. Um sentido de volume aproximava-se das obras erguidas no espaço em três dimensões. A forca da evolução irrompia – figuras novas que surgiam ali perto, puras de não objecto, limpas de voluptuosidade tradicional, eivadas de uma monstruosidade filosófica do fim da guerra. E a verdade é que do caos da guerra nascera novo mundo – Henry Moore representava a brutalidade do ser imediato que vê a destruição , do ser que aos poucos se destrói a si mesmo, suas esculturas são a busca de uma dignidade em estado de decomposição. A Humanidade havia ocasiões em que se desfazia, evacuava, estripava – ao escultor competia apreender as imagens principais deste drama. Assim ele ergue um rei e uma rainha, assim cria um conjunto de símbolos, sínteses do nosso viver contemporâneo. Eu precisava de falar nos ateliers, queria a vida mais próxima do que o cheirar de obras no Museu. Aproveitei a primeira exposição da Vieira da Silva em Londres para convidar o Henry Moore, para mim a figura que no mundo herdara a força de Rodin.

Henry Moore, Tube Shelter Perspective - the Liverpool Street Extension (1941)

Nosso encontro foi estupendo, fez nascer uma amizade que se prolongou pelos anos e levou a contactar as suas esculturas no próprio lugar de nascimento. Uma casa muito inglesa, atelier grande, esculturas nos jardins, desenhos por toda a banda, e em mim – talvez ele não detectasse o que eu pretendia – o contentamento de encontrar uma parcela valida da minha maneira de viver. Tudo quanto eu pensara e vira nas ruas de Londres, o embasbaque dos rescaldos da guerra, escombros a saírem da desilusão, paciências de esperança, hipocrisias aos estilhaços, fraternidades desconhecidas, gaguez dos pobres, dieta de ricos, anestesias para ver no espelho do mundo onde estava a dignidade, o respeito pelo ser humano. Presente uma coerência cósmica, intemporal, monstra, do tal e qual. A amargura dos ataques aéreos, os esconderijos, as noites colectivas nos fundões dos túneis que cruzam o subterrâneo de Londres. Ele, artista, ele sem partido, transmitia ao mundo o que fora a guerra, novo Goya relatando os desastres, na atenção de versos sólidos, sem as atenuantes da sombra que a rima por vezes modela. Uma humanidade com medo, cheia de bronquite, almas reduzidas de anatomia, sem toleima, corpos que pediam apenas para serem desenhados, esculpidos, o anonimato transformado para a eternidade. O que eu via era autentico, sem dilemas, façanhas tranquilas de quem ergue o que os outros teimam em deitar ao chão.
In Ruben A. – O Mundo à Minha Procura: Autobiografia. [III], Assírio e Alvim, pp.232-233.

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