André Charles Boulle

André Charles Boulle reste les plus celebre ébeniste de tous les temps”. Estas são as palavras com que Nicolas Sarkozy abre o catálogo da exposição “André Charles Boulle 1642-1732: Un nouveau style pour l’Europe”. E apesar do presidente francês estar longe de ser um perito em mobiliário, estas são palavras verdadeiras já que o nome Boulle continua a ser o expoente máximo desta arte. A exposição realizou-se no Museu de Artes Decorativas de Frankfurt de Outubro de 2009 a Janeiro de 2010 e tratou-se da primeira retrospectiva alguma vez realizada da obra de Boulle, hoje espalhada pelos melhores museus do mundo. A exposição ficará como um marco no conhecimento da sua obra, tal como o catálogo consigo publicada, da responsabilidade do comissário da exposicão, Jean Nérée Ronfort.  Ronfort está a preparar o catalogue raisonné de Boulle e o catálogo serve não só como registo das peças presentes na mostra mas como local de discussão de assuntos que levem ao entendimento global de Boulle e que, ultimamente, levem à definição clara das obras da sua autoria. E esta definição nunca foi fácil já que a sua oficina, as suas obras e os seus modelos foram sempre tendo uma vida própria para lá do mestre e  da sua morte.
André Charles teve uma vida longa e profícua. De uma família proveniente dos Países Baixos, e filho de ébèniste, rapidamente a sua capacidade técnica o fez destacar no meio parisiense. Com apenas 30 anos, os suas obras de marqueteria já se tinham tornado célebres e Colbert atribuiu-lhe um atelier nas galerias do Louvre. Com reconhecimento real —  sem necessidade de estampilhar as suas obras e sem estar sob a alçada das confrarias e — o seu atelier torna-se em cinco anos o maior de Paris, albergando todos os ofícios necessários às suas complexas peças de mobiliário. O catálogo dedica capítulos a Paris do tempo de Boulle e ao funcionamento das galerias do Louvre mas essencialmente revela um pouco da evolução na sua carreira de 70 anos, desde as marqueterias vegetalistas em múltiplas madeiras, passando pelo uso combinado do estanho ao luxuoso uso de tartaruga com ébano e latão combinado com riquíssimas montagens em bronze.
O mobiliário que hoje de uma forma geral denominamos por “boulle” não foi uma invenção deste artista. Nem uma técnica sua exclusiva. Ele foi sim o seu expoente máximo, mas outros nomes antes se iniciaram na técnica que envolvia o revestimento complexo decorativo num resultado profundamente rico e opulento. Alexandre-Jean Oppenord ou Pierre Gole são referências da geração anterior a Boulle, e outros como Oppenord filho, Cucci, Sageot e Bernard Van Risenburgh marcam a sua própria geração e aos quais é dedicado um capítulo do catalogo.
Esta técnica nunca teve revivalismos, já que nunca desapareceu de moda até ao final do século XIX. Como símbolo último de luxo e mesmo de poder, este mobiliário continuou em produção em Paris pela mão dos filhos de Boulle, de Levasseur por exemplo na segunda metade do século XVIII, por Thomas Parker e Edward Baldock em Londres no início do XIX e por aí fora. A par desta constante produção, existiu uma permanente procura, coleccionismo que ganha forte ímpeto com a Revolução Francesa que obriga à circulação de muitíssimas obras de arte, grande parte atravessando o Canal da Mancha. Aos coleccionadores britânicos (de Devonshire a Beckford, de Hertford a George IV) é dedicado tambem um texto da autoria de Peter Hughes. Sente-se no entanto neste catálogo a falta das peças da Wallace Collection, repositório incomparável de mobiliário frances que devido aos seus estatutos do legado, não efectua qualquer empréstimo das suas obras.
Apesar da sua marca na História, Boulle carece de investigação. O século XIX revelou duas suas biografias — de 1872 e 1893, da autoria de Charles Asselineau e Henry Harvard, respectivamente — e o século XX foi sendo feito de estudos parciais de obras e elementos da sua carreira. Apenas em 1979, Jean-Pierre Samoyault apresenta novas descobertas documentais que dão um novo impulso ao conhecimento da sua obra.
Perante este deserto, os capítulos “Biographie nouvelle et ateliers sucessifs” e “Chronologie et evolution de l’ouevre”, da autoria do comissário, são indiscutivelmente os textos chaves e aqueles que levarão muitos académicos, conservadores de museus, estudantes e amadores a conservarem este livro como a referência de hoje em diante, em tudo o que a Boulle diz respeito. Pelo menos, até Ronfort publicar o tão aguardado catalogue raisonné. Devido ao trabalho sério, profundo, competente e merecido desta exposicão e catálogo, aguarda-se com ansiedade o próximo capítulo. Que venha em breve tempo.

André Charles Boulle 1642- 1732: Un Nouveau Style pour L’Europe
Jean Nérée Ronfort (dir)
Somogy e Museum für Angewandte Kunst, Frankfurt
publicado em francês e alemão
2009

Publicado em L+Arte, Marco 2010

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3 thoughts on “André Charles Boulle

    • Boa tarde Luis,

      meu nome e André,sou polonês residente no brasil eu sou restaurador de conservador de obras de arte com mestrado em arte ebanista concluído na polônia no ano 2000,
      no inicio deste ano 2012 conclui a restauração de um armário francês 1720-1740, original, com acabamento de Boulle, marchetaria, bronze dourado e painel florentino em pietra dura, caso seu interesse você poderia mandar a foto da peça mencionada por você para pesquisa, atenciosamente André P.Kosierkiewicz

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