Wedgwood & Bordalo Pinheiro

A crise nos mercados financeiros despoletou um cenário nunca visto na economia mundial. Todas são as áreas afectadas e recentemente vimos nos jornais noticias relativas a duas históricas fábricas de cerâmica – Wedgwood e Bordallo Pinheiro. Ambas partilham, no momento, a proximidade da falência e o facto da sua produção ser altamente coleccionável assim como, na sua origem, fundadores carismáticos e um produto final inconfundível.
Têm contudo, naturezas diferentes. As notícias da falência do grupo Waterford Wedgwood encheram as páginas dos jornais britânicos já que se trata de uma marca extremamente próxima do público. Escreveram por exemplo que esta fábrica “foi parte integrante do design, produção e cultura doméstica britânica durante 250 anos”. Da mesma forma a louça da fábrica Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro e as personagens criadas por Rafael Bordalo fazem também parte do nosso imaginário nacional.
O peso do nome Wedgwood parece assim desvanecer-se para ir fazer parte dos livros de história e dos catálogos dos leilões. Em Portugal, a Wedgwood teria paralelo na Vista Alegre, com quem comparte tantas características: inovação técnica na sua origem e em certos períodos da sua história, evolução estética ao longo dos anos, instalações industriais inovadoras e com preocupações sociais, a associação recente com uma cristaleira, uma presença como marca fortíssima na sociedade assim como uma forte legião de coleccionadores.
Esta instituição britânica foi fundada em 1761 por Josiah Wedgwood, um homem notável, quase genial, que viu amputada uma perna ainda novo, formou a maior indústria cerâmica da Grã-Bretanha, tornou-se um activista da abolição da escravatura e um apoiante da independência da América. Este homem de negócios brilhante nasceu numa família de ceramistas em 1730, em Staffordshire, a região já então conhecida pela cerâmica ali produzida. Não levou muito tempo até Josiah se estabelecer sozinho e iniciar as experimentações que o levariam ao sucesso.  Começou por elevar a qualidade das pecas de uso quotidiano com o seu cream coloured earthenware, superior a tudo que se fazia na Europa nesta área. Impressionando a aristocracia foi-lhe sido atribuído pela rainha Carlota o título de “Queen’s Potter” em 1762. Mais tarde a Imperatriz Catarina II da Rússia viria a encomendar-lhe um conjunto de mais de um milhar de pecas.
As suas sucessivas experiencias levaram à criação do jasperware em 1773, que lhe garantiu a fama mundial. Podendo ser usada para inúmeros ornamentos tinha a grande vantagem de ligar facilmente óxidos metálicos (como o azul) com relevos moldados separadamente, levando à sua imagem de marca, as peças azuis com relevos em biscuit brancos de estilo neoclássico, directamente inspirado na Grécia e em Roma.
Mais de cem anos mais tarde, em 1884, a fábrica de Bordallo surge como herdeira do modelo industrial criado por Wedgwood.  Influenciado pelo movimento Arts&Crafts, propunha-se fazer materiais de construção assim como louça artística e comum, funcionando igualmente como fábrica-escola em troca de um subsídio do governo. Bebe da tradição já existente na região e realiza peças com motivos Manuelinos assim como peças inspiradas nas obras do ceramista quinhentista Bernard Palissy. Mas, pelas mãos de Rafael Bordalo, cria um estilo próprio marcado pelo Romantismo revivalista, assim como pela Arte Nova. “A obra cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro foi prolífica e variada e entronizou-se na tradição cerâmica das Caldas, tendo popularizado e reproduzido incessantemente peças inspiradas nos grandes pratos natureza-morta criados por Bordalo, as figuras de movimento ou de engonço ou o célebre Zé Povinho”, pode-se ler no site do Museu Bordalo.
Pretendia-se que a qualidade se sobrepusesse à quantidade e o trabalho manual deveria valorizar o resultado industrial. Com resultados notáveis, não só artísticos como técnicos, a fábrica das Caldas teve sempre que lutar pela sua sobrevivência, já que o seu carácter estético se impunha ao utilitário e igualmente porque Rafael Bordalo, seu director técnico e artístico durante vinte anos, nunca ter sido um grande gestor.
A fábrica viveu sempre entre a aclamação crítica (em Portugal e no estrangeiro, nas várias exposições internacionais em que participou) e os problemas financeiros.  Logo em 1892, as dívidas acumulavam-se, e em 1900 a direcção da fábrica passa para o filho de Rafael, Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920). Em 1907 a fábrica vai a hasta pública e em 1908 acaba por ser demolida. Nesse mesmo ano Manuel Gustavo aventura-se na construção de uma nova fábrica que acaba também rapidamente por fechar portas. Em 1922, um grupo investidores, incluindo um membro da família Bordalo, compraram a casa e terreno de Manuel Gustavo, assim como os moldes originais, construindo uma nova fábrica, fábrica essa que hoje está nas páginas dos jornais.
A produção que saiu destas várias fábricas desde o início foi altamente coleccionável. Esse apelo ainda hoje continua e nas palavras de Raquel Henriques da Silva na L+Arte “há mercado para esta produção de coisas que não servem para nada, como sempre acontece com os objectos artísticos”. Por isso é que a reabilitação da Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro seria bem mais fácil que a de Wedgwood, se formos simplistas e não pensarmos nos valores financeiros incomparáveis em jogo. A Wedgwood está a tentar vender um produto que perdeu o seu fascínio com as mudanças não só de gosto do momento (ao qual sempre tentou se adaptar) mas essencialmente de hábitos. Com a diminuição drástica do mercado de luxo para a cerâmica utilitária, será muito difícil para uma empresa como esta competir com as produções asiáticas, em constante mutação e com identidades maleáveis aos gostos do momento. A Wedgwood sofre do facto dos seus produtos terem deixado de ser símbolos de um certo status social e de um gosto distinto. E as suas tentativas de adaptação aos tempos modernos, com, por exemplo, a chamada de novos artistas capaz de mudarem a imagem tradicional das marcas não deixam de ser interessantes e fugazes experiências com pouca visibilidade e impacto comercial. Esta empresa vive na ambiguidade de ter uma produção industrial destinada a um escalão que já não esta habituado aos hábitos sociais que o seu uso implica, vivendo apenas do peso histórico das sua marcas. E a produção destinada ao grande público não consegue competir com os mercados asiáticos. Apelos à renovação da imagem, dos processos de produção, ao estilo, etc, etc, nada serão se já não existem vitrinas nas casas da classe média e alta para expor os seus “troféus” cerâmicos que se apresentam a uso à mesa por ocasiões especiais.
Por isso, e pondo de parte as questões artísticas, será bem mais fácil a fábrica das Caldas da Rainha sobreviver, precisamente porque as coisas que não servem para nada terão sempre mercado, a arte terá sempre mercado. A singularidade das técnicas e estilos de Josiah Wedgwood diluíram-se no tempo e na modernização dos processos sendo a sua reinvenção um processo complexo, enquanto que os moldes de Rafael Bordalo Pinheiro e a perícia oficinal passados de geração para geração subsistem nas Caldas. Aconteça o que acontecer com estas duas fabricas históricas, o legado dos seus fundadores continuará nas peças que sobrevivem fazendo as delicias de muitos coleccionadores do presente e do futuro.

Fevereiro 2009

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