Thomas Hope: Regency Designer

A exposição Thomas Hope: Regency Designer no Victoria & Albert Museum oferece-nos pela primeira vez uma perspectiva alargada da figura carismática que foi Thomas Hope. Designer, coleccionador, mecenas, escritor, pintor, historiador e fazedor de gostos foi uma das figuras centrais do estilo Regency em Inglaterra e um dos maiores connaisseurs de todos os tempos.
A sua realização mais importante foi sem dúvida a sua casa de Duchess Street, em Londres, epíteto do design total e síntese material do seu pensamento estético. A exposição dá o merecido destaque a esta casa, com a recriação de algumas das salas. No entanto, a exposição começa com um pequeno núcleo dedicado ao contexto familiar.

The Aurora Room Plate 7 from Household Furniture & Interior Decoration By Thomas Hope (1769-1831), published in London 1807

Thomas Hope nasceu em Amesterdão no ano de 1769 numa das famílias mais ricas da Europa. Os Hope eram holandeses de origem escocesa com fortes ligações a Inglaterra. Faziam parte, com os Rothschild e os Barings, do trio de banqueiros que dominavam a banca europeia de então, tendo se refugiado em Londres com a invasão napoleónica da Holanda em 1795.
Antes de se fixar em permanência em Londres, Thomas Hope realizou um extensivo grand tour entre 1787 e 1795, não só visitando Itália e Grécia, Portugal e Espanha, como também aventurando-se pelo Império Otomano e Médio Oriente, revelando um interesse precoce por áreas e culturas que apenas a conquista do Egipto de Napoleão uns anos mais tarde viria a despoletar. Desta viagem resultou não só o reconhecimento para si da importância da cultura clássica — já em voga — como também teve resultados mais concretos, como os desenhos dos locais visitados  e uma obra literária, Anastasius, as fascinantes memórias de um grego que calcorreia o Império Otomano; um enorme sucesso em Inglaterra. Alguns destes desenhos, hoje pertença do Museu Benaki de Atenas e presentes na exposição, revelam um talentoso desenhador.
Um dos resultados desta viagem foi igualmente a encomenda a William Beechey de um retrato seu vestido como grego da marinha otomana, de um exotismo longe dos habituais retratos “batonianos”. Era este retrato que recebia os convidados na sua casa, tal como nesta exposição, à entrada.
Ao instalar-se em Londres começa uma batalha para impor o seu gosto à sociedade inglesa. Como primeiro passo compra a casa da autoria de Robert Adam em Duchess Street convertendo-a numa referência do gosto de então. Em 1802 inaugura a casa com uma grande festa contando com a presença do Príncipe Regente e dois anos mais tarde abre-a ao público.
O seu gosto surgia, nas suas palavras, em contraponto à “decadente escola francesa dos meados do último século” e tinha como objectivo voltar à “verdadeira elegância e beleza” no design, no vestir, na decoração, inspirado nos modelos gregos e romanos. Acreditava firmemente que tal proporcionaria ao “olho e à mente a mais viva, permanente e constante satisfação”, e que encorajaria artistas e artífices.
Em 1807 lança Household Furniture and Interior Decoration, monografia sobre a sua casa com reproduções de cada uma das salas e do mobiliário existente, por si desenhado. Aquela torna-se na bíblia do estilo de então, introduzindo pela primeira vez o termo “decoração de interiores” na língua inglesa, tendo igualmente um impacto significativo na produção de mobiliário já que os desenhos lineares não coloridos e a apresentação das suas dimensões destinavam-se precisamente a promover a sua reprodução.
As várias salas eram decoradas e mobiladas em vários estilos — grego, romano, egípcio, turco, chinês, hindu… — num misto de exotismo e arqueologia com uma forte influência francesa dos períodos Império e Directório. Hope na sua introdução descreve em pormenor as divisões da casa e reconhece as influências várias; entre elas é notória a de Percier e Fontaine, arquitectos de Napoleão e autores de Recueil des Decorations Intérieures, de 1801, a obra de referência do estilo Império.
A sua abordagem da decoração de interiores era não só arqueológica, embora não consistente, como também poética e narrativa. A Sala Flaxman, reconstruída parcialmente na exposição, parte da escultura Céfalo e Aurora, encomendada por Hope a John Flaxman, o mais importante escultor inglês de então, para criar uma decoração relacionada iconograficamente com esta. Já a Sala Egípcia, revela a sua criatividade na criação de interiores totais, assim como alguns dos resultados mais felizes do seu mobiliário. É nesta sala, também, que está exposto o Leão de pórfiro egípcio do Museu Nacional de Arte Antiga. Este pertenceu a outros dois coleccionadores de classe mundial: Hope comprou-o no leilão de Sir William Hamilton e mais tarde passou pelas mãos de Calouste Gulbenkian, que o doou ao museu nacional. Os comissários da exposição optaram por não fixar uma datação para esta escultura, levantando a dúvida quanto à sua antiguidade, afirmando que tanto poderá ser uma obra do período ptolemaico (323 a.C. – 30 a.C.) como uma reprodução do século XVIII.
A William Hamilton também pertenceu parte da colecção de vasos gregos e romanos, indiscutivelmente um dos pontos altos da casa. Thomas Hope comprou cerca de 750 vasos deste embaixador de Inglaterra em Nápoles — que Susan Sontag romanceou brilhantemente em O Amante do Vulcão — que já tinha vendido a sua primeira colecção ao British Museum anos antes. O acesso privilegiado às escavações de Herculano e Pompeia, o empenho em obter as melhores peças disponíveis (por exemplo o famoso Vaso Portland) e a publicação em quatro luxuosos catálogos dos seus vasos tornaram as suas colecções famosas e uma referência para o seu estudo da cerâmica grega. Três destes vasos, hoje na colecção do British Museum, estão presentes na exposição.
Também da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, e igualmente doada por Gulbenkian, o torso de Pothos, uma cópia romana do escultor grego Escopas de Paros fazia parte do pequeno grupo de esculturas clássicas de Hope, expostas entre Londres e Deepdene, a sua casa de campo em Surrey. Fernanda Castro Freire incluiu-a entre as 50 obras mais importantes nos museus portugueses e está hoje a cargo do Museu Gulbenkian, dado ter sido no ano passado objecto de um curioso empréstimo do Museu Nacional de Arte Antiga a este museu.
Para além das esculturas clássicas, Hope encomendou obras às três figuras cimeiras da escultura neoclássica: John Flaxman, o italiano Antonio Canova, e o dinamarquês Bertel Thorvaldsen, tendo resgatado este da miséria.
Já numa segunda fase da sua vida, Thomas Hope resolve dedicar-se à sua segunda casa. Deepdene era uma casa do século XVIII, remodelada às mãos de Hope numa prolífica mistura de estilos e referências, da villa italiana, ao gótico, de Pompeia ao Egipto, ignorando por completo a tradição da casa de campo inglesa. Inserida numa paisagem pitoresca, o seu resultado é uma síntese eclética e quase bizarra da rica visão Hope. As aguarelas de William Henry Bartlett e Penry Williams na exposição mostram a riqueza arquitectural da casa, dos seus interiores e exteriores intimamente ligados, no tempo de Hope, dado que hoje, embora ainda existente, a casa sofreu inúmeras alterações.
No entanto, é no mobiliário que Hope terá um impacto mais significativo. As suas criações, essencialmente as de cariz grego, não só foram reproduzidas pelos artífices de então como inspiraram as mais importantes publicações de desenhos do mobiliário Regency, de George Smith e Rudolph Ackermann. Em maior ou menor medida, os seus desenhos e modelos ou elementos decorativos foram adoptados por estes e por outros, como George Bullock, tornando comuns os cadeirões com os lados com esfinges aladas, mesas com pés em forma de leões, pedestais, mesas inspiradas nos modelos de Pompeia, cadeiras com forma da cadeira grega klismo e a famosa cadeira Trafalgar.
O catálogo complementa a exposição de forma brilhante, explorando minuciosamente todas as facetas de Hope com capítulos dedicados ao vestuário, à sua família, aos diversos núcleos da colecção, a Deepdene, a Hope como historiador e escritor prolífico, assim como aos revivalismos Regency durante o século XX e ao impacto das suas ideias na criação e sociedade inglesa.
A figura de Hope impôs-se não só pelo seu carácter multi-facetado e pela forma como pôs a Grã-Bretanha a pensar no Estilo e no Gosto, mas pela promoção séria e consistente da qualidade do design aplicada à produção em massa. Nas palavras do seu filho Alexander, ele foi o “primeiro dos Ingleses a conceber e pregar a ideia de arte-manufactura, de aliar a beleza da forma às necessidades e à produção da vida quotidiana”. E será esta ideia que, como todos sabem, umas décadas mais tarde, ressurgirá e se irá impor e marcar todo o século XX.


Thomas Hope: Regency Designer
Victoria and Albert Museum, Londres
Até 22 de Junho de 2008
Bard Graduate Centre, Nova Iorque
De 17 Julho a 26 Outubro de 2008

Publicado em L+Arte, Maio 2008

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