Messerschmidt

A evolução da História da Arte e esgotamento de certos temas abrem portas para o estudo de artistas que por razões várias estiveram fora do radar da maioria. Franz Xaver Messerschmidt é decididamente um desses artistas. Apesar de sempre considerado e nunca completamente esquecido, a sua obra nunca teve no entanto a atenção merecida. Escultor de formação barroca, fez a transição para o neoclassicismo com relevante sucesso na corte da Imperatriz Maria Teresa em Viena. A sua importância reside contudo num conjunto de esculturas denominadas depois da sua morte de “cabeças de carácter”, um extraordinário grupo de cabeças revelando diferentes expressões humanas que posicionam Messerschmidt a par de artistas como Goya e William Blake na exploracão mais profunda da alma humana.
São estas cabeças o motor da exposição notável na Neue Galerie, em Nova Iorque, produzida em associação com o Museu do Louvre, para onde mais tarde viajará. Em França, esta exposição vem no seguimento do interesse levantado pela compra de uma destas peças pelo museu em 2005, assim como no contexto das exposições sobre importantes artistas muito pouco conhecidos, tais como Nicolai Abildgaard e Ferdinand Georg Waldmuller. Já em Nova Iorque, a exposição num museu dedicada à arte alemã e austríaca da primeira metade do século XX, compreende-se pela indiscutível singularidade e energia expressiva de Messerschmidt que o posicionam como um claro precursor, e influência, do movimento expressionista alemão.
O seu catálogo é por isso um marco, embora mais no plano da divulgação da sua obra junto do grande público do que no aprofundamento do conhecimento da sua carreira e produção.
Maria Poltz-Malikova é a co-comissária da exposição e responsável pelo catálogo em parceria com Guilhem Scherf, conservador chefe do Departamento de Escultura do Louvre. Sendo indiscutivelmente a maior especialista na obra do escultor germânico, a monografia publicada por Poltz-Malikova em 1982 continua a ser a grande referencia bibliográfica relativa a Messerschmidt, embora estudos específicos tenham sido desenvolvidos nos últimos 30 anos, por esta autora e muitos outros. Este catálogo é composto por um estudo da vida e obra de Messerschmidt, pela mão da comissária, responsável também pela cronologia  e entradas de catálogo para cada uma das peças. Scherf, no entanto, traz uma perspectiva externa de alguém profundamente conhecedor da escultura do período em que Messerschimdt viveu, fazendo um estudo dos retratos e cabeças, sublinhando a sua singularidade, mas posicionando-o no devido lugar junto dos seus pares europeus coevos.
Uma das vias pela qual o escultor tem sido recuperado foi a arte contemporânea, como por exemplo, na exposição de Tony Cragg no Belvedere de Viena com as “cabeças” como motivo. E deste modo, o texto de Antónia Bostrom sobre o interesse na obra de Messerschmidt nos finais dos séculos XIX e XX, é extremamente interessante e vital para compreender o seu impacto na arte moderna e contemporânea.
Por fim, a questão do saúde mental de Messerschmidt, sempre debatida e posta em causa. Um texto de Marie-Claude Lambotte explora esta questão psicológica, minimizando muitas das múltiplas teorias levantadas ao longo dos anos e enquadrando a produção das “caracther heads” num interesse individual perfeitamente em sintonia em estudos psicológicos do século das Luzes.
Após as exposições de Bratislava em 1983, Viena em 2002-03 e Frankfurt em 2006-07, estas de Nova Iorque e Paris, juntamente com o excelente catálogo, tocam portanto nos pontos essenciais da obra de Messerschmidt e deverão trazer-lhe finalmente a visibilidade que merece junto do grande público. Das cabecas, cerca de 60 originalmente, e espalhadas pelo mundo, são apresentadas na exposição cerca de vinte, todas saídas da mão do escultor, deixando de fora muitas das reproduções existentes de originais desaparecidos. Se estas nunca nos deixam de surpreender e espantar, as exposições têm ainda a mais valia de nos mostrar o superior nível da sua arte do retrato, tanto no espírito barroco – como no busto de Maria Teresa – como neoclássico – exemplificado no retrato do Príncipe do Liechtenstein.

Franz Xaver Messerschmidt 1736-1783: from Neoclassicism to Expressionism
Maria Potzl-Malikova, Guilhem Scherf (ed.)
Neue Galerie, Musée du Louvre, Oficina Libraria, New York, Paris, Milan, 2010.
222 pags.
$55

in L+Arte, Novembro 2010

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