L+ARTE

A L+Arte vai acabar. Tristemente. Porque depois de 7 anos de luta mensal, mais uma crise em Portugal leva ao mercado da publicidade tremer e revistas como esta que já viviam sob pressão não sobrevivem.
A L+Arte é uma revista com aqueles atributos que tanta gente e tantas coisas reivindicam. É contemporânea e eclética. É inteligente e actual. É graficamente bonita e interessante. É por isso sofisticada e, feita em Lisboa para Portugal, está totalmente a par dos acontecimentos no mundo. Com recursos limitados, cumpre com excelência o seu papel, algo que nem todas as publicações periódicas podem dizer.
Tenho o orgulho de ser colaborador da revista desde o primeiro número, na altura sem grande direcção e cheia de ingenuidade, incluindo da minha parte que nunca tinha escrito. Mesmo com um nome menos feliz em termos de marketing, a revista cresceu e, devagarinho, pela mão da Paula Brito, assumiu-se como a fonte primordial de informação sobre arte, antiguidades e leilões – como está escrito na capa, desde a primeira edição – em Portugal. Olhada de lado ao princípio pelo meio, ganhou progressivamente o seu respeito; dos museus, das galerias, das leiloeiras, dos artistas, dos antiquários, dos coleccionadores, assim como dos seus pares internacionalmente.
Quanto mais penso, mais absurdo me parece este fecho. Por que agora que a L+Arte atingiu um ponto de qualidade, onde está pronta para outros voos, para inovar, para contribuir mais activamente para o meio artístico português, seja criativo seja de mercado, cortam-lhe as pernas e tudo acaba. A L+Arte, no seu ecletismo, juntou numa mesma família o mundo da arte em Portugal, tornando uns e outros conhecidos, apresentando-se uns aos outros: os leitores, os coleccionadores – que tantas vezes abriram as portas das suas casas – , os artistas, os seus ateliers, os antiquários, os galeristas, os simples amateurs d’art.
Na L+Arte, no campo das crónicas, pode-se ler as histórias do mundo de Francisco Capelo, a precisão e profundidade das opiniões de Raquel Henriques da Silva, a sabedoria de Joaquim Caetano e os ensinamentos sempre com estilo de Anísio Franco.
No mundo da arte contemporânea, deu-se espaço a novos críticos como Maria do Mar Fazenda e Bruno Marchand. Nomes estabelecidos como Miguel Amado, Nuno Crespo ou Filipa Oliveira deixaram a sua marca, e pesos pesados como Delfim Sardo, Paulo Cunha Silva, Isabel Carlos, Alexandre Melo ou João Pinharanda escreveram por convite, a par de uma mão cheia de directores de museus e conservadores.
O Pedro Faro, a Madalena Reis, o João Júlio Teixeira e outros, de forma mais regular, enchem as páginas com artigos que revelam a verdadeira razão de ser desta revista: a paixão (ou amor, se quiserem) pela Arte e o que ela traz para as vidas de cada um; de quem lê e de quem escreve.
Mais ninguém faz este papel e é desnecessário dizer que a L+Arte vai fazer muita falta. Ao público que a lê, gosta e se informa, como ao meio da criação, do antiquariato, das leiloeiras e das galerias. Estes não só precisam dela pelas mesmas razões do público, mas também porque não podem sobreviver sem um público informado e interessado. Todos perdem e ganha a crise.

2 thoughts on “L+ARTE

  1. Extraordinário texto, como sempre. A verdade é tão absurda que mesmo querendo não consigo escrever nada… Obrigado.

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