Hearst The Collector

A primeira metade do século XX assistiu a uma das maiores migrações de obras de arte já vistas no mundo, se não mesmo a maior. Coleccionadores nos EUA como J.P.Morgan ou Henry Frick compraram milhares de peças na Europa, de pequenas pinturas a claustros inteiros. William Randolph Hearst fazia parte desse grupo de milionários que comprou compulsivamente e num dos seus obituários, escreveu-se que as suas aquisições durante os anos 20 e 30 totalizavam cerca de 25% do mercado mundial da arte. Afirmação provavelmente exagerada, mas a necessidade de mobilar e decorar seis residências apalaçadas, a par de um apetite voraz fizeram dele um dos mais importantes coleccionadores do século XX. O Los Angeles County Museum of Art (LACMA), receptor de muitas doações de Hearst resolveu agora realizar uma exposição sobre esta faceta do milionário assim como publicar um catálogo que revelasse grande parte dos avanços no conhecimento desta colecção e do seu responsável.

Nascido em 1861, William Randolph Hearst foi uma das figuras mais influentes da história do jornalismo americano e mundial, tendo inventado o jornalismo tablóide assim como revolucionado o grafismo dos jornais e revistas. Proprietário de várias dezenas de publicações, empresas de mineração e enormes propriedades agrícolas, foi igualmente um importante produtor de Hollywood.

A imagem de Hearst ficará para sempre ligada ao filme de Orson Welles Citizen Kane, já que este foi nele inspirado, mas não factualmente verdadeiro. Por isso, a importância deste livro reside essencialmente na destruição da imagem falsa criada por Welles de um coleccionador compulsivo, sem critério e que guardava os seus tesouros num armazém. A verdade é que Hearst era um coleccionador extravagante, voraz e intuitivo, mas sofisticado e exigente.

O catálogo, da autoria de Mary L. Levkoff, abre com a história que levou ao seu interesse por Hearst: um magnífico cofre de madrepérola do Guzarate com montagens de Pierre Mangot (1532-1533) que pertenceu a Francisco I de França (hoje no Museu do Louvre). Adquirido em Lisboa através dos contactos da sua segunda mulher, Leonor de Portugal, surgiu no mercado pelas mãos dos Kugel nos inícios dos anos 90. Alexis Kugel, seguindo uma pista oral, procurou a ajuda de Levkoff, conservadora do LACMA, para provar a passagem deste cofre pelas mãos de Hearst. A investigação feita nos arquivos do Hearst Castle (San Simeon, na Califórnia) revelou um manancial de informação que não poderia deixar de ser ignorado e passados estes anos, esta exposição e o catálogo são a materialização dos estudos subsquentes desta conservadora. Estudos que provam que Hearst era dono de obras da autoria de Boucher, Canova, Van Dyck, Greuze, Lawrence, Reynolds, Tintoretto, David, Vouet, Thorvaldsen e Canova, muitas dessas obras hoje em museus como o Louvre, o LACMA, o Metropolitan, Rijksmuseum, National Gallery de Washington,  Thorvaldsen de Copenhaga, Detroit Institute of Art e muitos outros museus espalhados pelo mundo.  Muitas destas peças, estiveram até agora com a proveniência Hearst obliterada da sua história.

O catálogo está articulado por capítulos respeitantes a cada uma das seis residências principais precedidos por um capitulo introdutório. Um capítulo dedicado à crise que em 1937-42 afectou violentamente o império de Hearst e outro intitulada a sua renascença, abrem caminho para o catálogo das peças expostas propriamente. Este último capítulo, dedicado à parte final da sua vida, foca-se na importância de Hearst como filantropo, já que ele doou milhares de peças a museus, não só da sua colecção mas igualmente peças compradas com aquele propósito para museus específicos, em especial o LACMA.

O catálogo oferece-nos uma boa amostra da sua colecção de vasos gregos que em quarenta anos se tornou a maior e melhor colecção privada desta categoria. Era igualmente a maior colecção privada de armas e armaduras do mundo e a sua colecção de tapeçarias era sem igual.  O catálogo apresenta ainda uma selecção de cerâmica do Levante espanhol, majólica italiana, esmaltes de Limoges, prataria europeia, escultura clássica e pós-clássica, pintura europeia, revelando a panóplia de interesses de Hearst com esta escolha de algumas das suas melhores peças, hoje espalhadas pelo globo.

De qualquer forma, este livro revela as dificuldades – assumidas – que a autora sentiu em tratar tão extenso objecto, já que diversos assuntos mereciam algum aprofundamento, tais como a colecção de vasos gregos ou a relação entre as propriedades. O gosto de Hearst por mobiliário, arte pré-colombiana e vitrais, também acaba por não ser explorado. De qualquer forma, a autora afirma que “este livro não é mais que uma introdução ao assunto. Foca-se no interesse que as obras de arte em si têm, dentro do contexto que Hearst criou para elas”.  E como “introdução” ao assunto, não é pequeno feito, cumprindo a sua função de clarificação do papel e do gosto deste épico coleccionador e figura incontornável da primeira metade do século XX.

Hearst The Collector
Mary L. Levkoff
255 pags.
Abrams Publishers

publicado em L+Arte, Maio 2009

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