Nas mãos

Estava nos subúrbios de Washington, com os seus relvados bem cortados, ruas obviamente desenhadas em papel e casas em linha estranhamente próximas. Uma colecção de pintura contemporanea perto do medíocre povoava a casa e não ajudava a que o mediano mobiliário inglês respirasse. No escritório, uma sala sem luz e muitos livros, esperava-me uma pequena pintura, um fragmento de uma tela, numa moldura seiscentista pintada e dourada, frágil, muito frágil que roubei da parede com medo.
O seu dono, descalço e de fato de treino, contava a sua história, o porquê de ser o que era, como o comprou e a quem, com uma intensidade que apetecia não acreditar em nada. Eu fingia que ouvia. E os meus olhos apenas viam a aura que contornava a cabeca do santo. A pincelada preta que delineia a forma e a pincelada branca que a contorna e expande. A cabeça que se desfaz na pele, intensa, hierática, com um grito preso.
Ontem, o meu presente, o ter no colo e tentar não abraçar, o que é hoje um ícone saído das mãos, com certeza longas e brancas, de El Greco.

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