A colecção do Conde de Daupiás

Texto publicado na revista L+Arte, rubrica Leiloes com Historia, 2005.

Cinquenta anos depois da venda da colecção do Marquês de Marialva em Paris, surge em Lisboa uma outra colecção de nível internacional, também esta sem par no coleccionismo português. Em 1892, as suas obras foram dispersas num leilão em Paris, sem que haja em Portugal uma vontade de as reter, nem seguidores na prática e no gosto encarnados no Conde de Daupiás.

Pedro Eugénio Daupiás nasceu em França, filho dos primeiros Viscondes de Alcochete. Bisneto do grande negociante do Pombalismo, Jácome Ratton, herdou a fábrica de lanifícios do Calvário, em Alcântara, que este fundara, e tornou-a na primeira do seu género em Portugal.

Personagem reservada, era contudo plural nos seus interesses, onde se contavam a esgrima, a música e a arte. Socialmente, fazia par no estilo de vida com figuras notáveis da época, como os Marqueses de Niza e Viana e o Conde de Farrobo. Existem relatos de acontecimentos em sua casa, junto à fábrica, com personagens como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Conde de Mafra, Sarah Bernard ou a Princesa Rattazzi.

Foi em Paris, onde estudou, que Pedro Daupiás ganhou o gosto pela arte e pela sua aquisição. Na década de 70 do século XIX, manda fazer em sua casa uma galeria para instalar a colecção de pintura, onde coloca também mobiliário Renascença, porcelana europeia e oriental, majólica italiana, bronzes, marfins, esmaltes… Ramalho Ortigão descreve esta galeria da seguinte forma: “Nessa galeria admirável, cuja instalação é superior de todas as colecções particulares que existem em Inglaterra (…) acham-se reunidas com uma disposição  e com uma decoração magnífica, preciosidades de toda a ordem (…). As extensas galerias, de parquets polidos, circundadas de divãs, ornadas de flores vivas, recebendo a luz de tectos de vidro fosco, desembocam n’um terraço suspenso sobre o Tejo e defrontado com um dos mais bellos panoramas de Lisboa. Falando d’esta casa (…) o Times, que não é fácil de contentar, dizia há tempos que valia a pena vir a Lisboa vêl-a.

No início, o núcleo de pintura era composto maioritariamente por obras do século XVII e XVIII, de origem francesa, inglesa, italiana e holanesa, Nomes marcantes da pintura, que hoje fariam as delícias  de qualquer museu português: Boucher, Fragonard, Watteau, Greuze, Gros, Largilliére, Lawrence, Mengs, Nattier, Panini, Reynolds, Ribera, Hubert-Robert, Coypel, Tiepolo, Wouvermans… E nomes de grande actualidade no gosto e, pela primeira vez, com uma certa segurança nas atribuições, que nas colecções portuguesas tendiam a ser fantasiosas.

No entanto, o gosto de Daupiás foi-se modernizando e as suas aquisições voltaram-se mais para a pintura do seu século. Delacroix, Corot, Millet, Courbet, Daubigny, T, Rosseau, Constant, Boldini, Duprê, Gérome, Laurens, Madrazo, Marchetti, Meissonier, e Scheffer demonstram a pluralidade das escolhas que iam da Escola de Barbizon ao gosto de Salon.

(…)

Em 1882, o Conde Daupiás resolveu publicar o catálogo dos seus quadros modernos, obra em francês, ricamente ilustrada, que demonstra o cuidado e gosto com que vivia a colecção e que com certeza lhe deu uma maior projecção internacional. Outra iniciativa inédita foi a construção, como já referimos, de uma galeria destinada à colocação das obras, mas que encarna o espírito museológico do seu tempo, com preocupacões de iluminação e exposição que lhe conferem um estatuto de proto-museu.

Mas 1892 marca uma viragem na sua vida. A par do agravamento de problemas financeiros, morre a sua mulher. Na sequência deste acontecimento, as filhas dão início a um complexo processo de partilhas que levou ao arresto dos seus bens. Ainda neste ano, ocorre em Paris um primeiro leilão dos seus quadros. Na introdução do catálogo afirmava-se: “tout le monde sait que la collection du comte Daupias etait la plus belle de Lisbonne et l’une des plus remarquables de ‘Europe.” Este leilão, segundo José-Augusto Franca, rendeu então a avultada soma de um milhão e duzentos mil francos-ouro.

Muitos destes quadros estão espalhados por diferentes e importantes museus e colecções particulares do mundo, como por exemplo o “Retrato de Diderot” de Fragonard, hoje em exposição no Museu do Louvre, ou o “São João Baptista” de Jusepe Leonardo, exposto na National Gallery of Canada. Começa assim a dispersão deste impressionante conjunto.

Em 1894 ocorre em Lisboa outro leilão, onde se vendem mais quadros, mobiliário e objectos de arte. Dois outros leilões, em 1910 e 1911, puseram o ponto final em mais uma colecção que, sem paralelo em Portugal, poderia ter tido um importante papel no desenvolvimento e actualização da arte nacional.

Estes leilões tiveram lugar já depois da morte do titular. Perante os problemas financeiros e familiares que o afectaram durante vários anos, em Janeiro de 1900, o Conde de Daupiás, depois de percorrer os espaços da fábrica à qual tinha dedicado uma vida, recolheu ao seu quarto e suicidou-se com um tiro de revólver.

 

Bibliografia:

Collection du V.te Daupias: Ecole Moderne, Tableaux, Aquarelles, Sculptures, 1882.

Catalogue de Tableaux Anciens & modernes composant l’important collection de M. Le Conte Daupias, Mai 1892.

Franca, Jose-Augusto – A Arte Portuguesa do Seculo XIX, Vol I, Lisboa: Bertrand, 1966, p.410-411.

Dicionario Historico, Corografico, (…), Vol. III, pags. 21-22, Lisboa, João Romano Torres, 1904-15

Silva, Raquel Henriques da Silva – Coleccionismo de Arte no Portugal de Oitocentos. In Henri Burnay: de Banqueiro a Coleccionador, Lisboa: Casa-mUseu Anastacio Goncalves, 2003.

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